Orçamento de obra com prazo curto: erros técnicos que podem virar prejuízo (e como evitar)
Depois de tentar de tudo, essa foi a sequência que menos me desgastou em 15 anos de orçamentos de obras para construtoras.
Trabalhei anos com orçamento em construtoras privadas. Já peguei desde “RFP + layout” até pacotes com centenas de pranchas, memoriais, planilhas do cliente travadas e prazo praticamente igual para tudo.
No começo, eu fazia o que muita gente faz quando o prazo é curto: abria a planilha, separava pacotes e começava a disparar cotação para ganhar tempo.
Às vezes funcionava.
Em muitos casos, virava retrabalho.
Com o tempo, o que mais mudou meu resultado não foi ferramenta. Foi a ordem das decisões.
Em orçamento de obra, principalmente com prazo curto, a ordem define o risco.
A sequência abaixo não é regra universal. É o caminho de melhor custo-benefício que encontrei para fazer orçamento de obra sob pressão sem aumentar o risco técnico.
Passo 1: Ler tudo e já rascunhar a técnica enquanto lê
Passo 2: Definir o produto viável antes de produzir
Passo 3: Priorizar por impacto, não por ordem de EAP
Passo 4: Quanto menor o prazo, mais você precisa preparar o envio ao fornecedor
Passo 5: Vincular a planilha do cliente antes de ter preço
Passo 6: Equalização é rotina. O cuidado é outro.
Passo 7: Use o histórico da sua empresa. Estatística também é ferramenta de orçamento.
Passo 1: Ler tudo e já rascunhar a técnica enquanto lê
Ler não é abrir PDF. É mapear decisão.
No primeiro giro da documentação — seja uma RFP enxuta ou uma obra turnkey com centenas de arquivos — eu procuro três coisas:
- O que está realmente definido.
- O que depende de premissa.
- O que está simplesmente ausente.
Isso vira três listas simples:
Definido – dá para orçar sem perguntar nada.
Depende – dá para orçar, mas preciso registrar qual premissa estou assumindo.
Falta – não fecha sem confirmação ou vira risco explícito.
Exemplos típicos em obra turnkey:
Arquitetura sem detalhamento de marcenaria, mas com RFP exigindo padrão executivo específico. Sem definir material, ferragem e acabamento, você está assumindo custo por conta própria.
Arquitetura sem paginação de forro enquanto a RFP exige forros especiais ou há alta interferência com HVAC, iluminação e sprinklers. Sem paginação, o quantitativo e o nível de recorte mudam completamente.
HVAC sem memória de cálculo de carga térmica, sem clareza sobre rede existente ou reaproveitamento. Isso altera equipamento, infraestrutura e consumo.
Retrofit com indicação genérica de “adequar ao existente”, mas sem levantamento confiável de carga instalada, quadros, prumadas ou shafts.
Nesses casos, o problema não é detalhe. É responsabilidade técnica.
Se você não identifica isso no primeiro giro, o risco entra no orçamento sem ser percebido.
É também aqui que começo a rascunhar a proposta técnica. Não para escrever bonito. Para registrar:
- Fronteiras de escopo.
- Interfaces críticas entre disciplinas.
- Riscos construtivos evidentes.
- Pontos que podem virar aditivo.
Se você deixa a técnica para o final, ela vira narrativa apressada.
Se começa no início, ela orienta o orçamento.
E tem outro efeito importante: você ganha base para sustentar o nível de precisão viável.
Se a documentação é frágil e o prazo é três dias, insistir em orçamento analítico pode ser mais arriscado do que assumir estimativa estruturada com premissas claras.
Passo 2: Definir o produto viável antes de produzir
Antes de sair levantando quantitativo, você precisa decidir que tipo de orçamento é possível naquele contexto:
- Orçamento analítico – composição detalhada por insumo, quantitativo rastreável.
- Semi-analítico – parte composta internamente, parte por pacotes.
- Estimativo – baseado em parâmetros históricos e premissas assumidas.
O erro comum não é fazer estimativa.
O erro é tentar fazer analítico quando a entrada não sustenta.
Algumas perguntas ajudam a decidir rápido:
- Os materiais e padrões estão claramente definidos?
- Existe detalhamento executivo ou apenas conceito?
- As disciplinas estão compatibilizadas?
- O cliente responde dúvidas dentro do prazo?
Se metade disso está indefinida e você tem três dias, não é questão de esforço. É limite técnico.
Quando você decide o produto cedo, organiza melhor o esforço.
Analítico exige tempo em levantamento e compatibilização.
Estimativo exige tempo em premissas e risco.
Misturar os dois sem decidir costuma gerar o pior dos mundos.
Passo 3: Priorizar por impacto, não por ordem de EAP
Quando o prazo é curto, você não ganha tempo fazendo tudo. Você ganha tempo começando pelo que define o custo final.
Aqui entra a curva ABC aplicada ao orçamento de obra.
Em corporativo, climatização, marcenaria, elétrica e luminotécnica costumam ser A.
Em retrofit, demolição, reforço estrutural e adequações técnicas podem dominar.
Em industrial leve, sistemas específicos e infraestrutura técnica pesam mais.
Se você gasta o primeiro dia levantando itens de baixo impacto, mas não tocou no pacote que representa 20% do custo, você organizou tarefa — não risco.
Uma separação simples ajuda:
- Alto impacto + alta incerteza → prioridade máxima.
- Alto impacto + baixa incerteza → resolve rápido.
- Baixo impacto → entra depois.
Se você trabalha sempre com a mesma tipologia, vale montar seu próprio mapa de curva ABC por vertical.
Isso economiza horas toda vez que um novo orçamento chega.
Passo 4: Quanto menor o prazo, mais você precisa preparar o envio ao fornecedor
Quando o prazo é curto, é comum fazer assim:
Você compatibiliza mentalmente o escopo inteiro, separa por disciplina, manda todos os projetos da disciplina para cada fornecedor e pede orçamento urgente.
Enquanto isso, você segue para levantamento de quantidades, estruturação de planilha, definição de premissas internas.
Em teoria, parece eficiente.
Na prática, é arriscado.
Porque o fornecedor só tem que entender o escopo dele. Mas, se ele abre a pasta e encontra documentação extensa, pouca definição ou alto nível de incerteza, a chance de ele:
– postergar
– devolver incompleto
– recusar
é muito alta.
E você depende desse retorno. Quanto menor o seu prazo, mais você precisa investir tempo na qualidade do envio, principalmente nos pacotes A da curva.
Exemplo comum em obra turnkey:
Marcenaria é A da curva.
Não veio detalhamento executivo.
Só layout conceitual.
Se você simplesmente mandar o layout e pedir preço urgente, o fornecedor vai travar. Ele vai ter que assumir padrão, ferragem, nível de acabamento, sistema construtivo. Ele não sabe até onde pode ir.
Nesse cenário, vale parar antes do envio e fazer o que for possível:
– Reunião rápida com cliente ou time interno para rascunhar diretrizes.
– Definir padrão mínimo de material.
– Assumir espessuras, ferragens e acabamentos.
– Montar croqui simples, se necessário.
– Anexar imagens de referência.
– Registrar premissas por escrito.
Você está reduzindo o espaço de decisão dele.
Isso aumenta drasticamente a chance de retorno no prazo.
Outro exemplo:
Forro especial com alta interferência de HVAC.
Sem paginação.
Sem detalhe de recorte.
Se você manda apenas a planta base, o fornecedor vai ter que interpretar interferência, estimar perda, prever reforço estrutural. Ele pode simplesmente não aceitar esse nível de incerteza no prazo pedido.
Se você já destaca as interferências críticas e registra como serão tratadas (mesmo que como premissa), você reduz insegurança.
O raciocínio é simples:
Quanto menos tempo você tem, menos pode depender da interpretação do outro.
No prazo confortável, o fornecedor ajuda a pensar.
No prazo curto, você precisa entregar para ele quase pensado.
Isso é gestão de risco sob restrição.
Se o fornecedor entende rápido, ele devolve rápido.
Se ele precisa pensar demais, ele adia.
E, no final, a responsabilidade pelo fechamento do preço é sua, não dele.
Passo 5: Vincular a planilha do cliente antes de ter preço
Esse é o ponto mais subestimado.
Se o cliente enviou planilha própria, muita gente deixa para o final achando que será rápido preencher.
Não é.
É onde mais dá problema quando deixado para o fechamento.
Antes de ter preço consolidado, eu gasto tempo estruturando o vínculo entre:
- Planilha interna da empresa.
- Planilha oficial do cliente.
Resolvo cedo:
- Mapeamento de colunas e códigos.
- Fórmulas de busca (PROCV, ÍNDICE/CORRESP).
- Ajustes com ESQUERDA, DIREITA, EXT.TEXTO quando códigos não batem.
- Consolidação com SOMASES.
- Tratamento de unidades e arredondamentos.
- Verificação de validações e células travadas.
Inclusive, a depender da planilha do cliente isso interferirá no nível de abertura do seu levantamento quantitativo, por exemplo, decidir se separará as quantidades por andar ou por sala? Depende de como esta aberto na planilha do cliente.
O objetivo é simples:
Inserir preço na planilha interna deve alimentar automaticamente a planilha do cliente.
Sem copiar e colar manual.
Sem quebrar fórmula.
Sem erro silencioso.
Essa etapa exige tempo no início.
Mas economiza muito mais no final.
Passo 6: Equalização é rotina. O cuidado é outro.
Enviar três ou mais cotações por disciplina, equalizar e escolher fornecedor é rotina padrão do orçamentista.
O ponto de atenção começa quando você compatibiliza o todo.
Depois de ler tudo, definir produto viável, rascunhar técnica e estruturar planilha, começam a aparecer os omissos.
Exemplos clássicos:
- HVAC cotado até equipamento com interligação elétrica, mas ninguém assumiu interligação no BMS.
- Elétrica cotou alimentação da subestação até o quadro do andar, mas não considerou adaptação no busway.
- Civil cotou reforço estrutural, mas não previu custo do laudo de aprovação que seria de um terceiro.
- Sistema especial cotou fornecimento, mas não incluiu startup ou integração.
Cada pacote isolado parece completo.
O conjunto não está.
É aqui que você precisa agir.
Ver qual parceiro consegue assumir.
Pedir preço específico.
Confirmar escopo por escrito.
Se aparecer buraco, resolve antes de fechar preço. Nem que seja por telefone. Tem serviço que não dá para estimar com segurança.
Passo 7: Use o histórico da sua empresa. Estatística também é ferramenta de orçamento.
Cada projeto é um projeto.
Isso é verdade.
Mas, estatisticamente, padrões existem.
Se a sua empresa trabalha com tipologias recorrentes (corporativo, hospitalar, industrial leve, retrofit) você provavelmente já executou obras suficientes para extrair comportamento médio por disciplina.
Se a EAP da sua empresa é estruturada por disciplina (arquitetura, civil, elétrica, hidráulica, HVAC, BMS, elevadores, paisagismo etc.), você pode consolidar histórico e extrair:
- Percentual médio de cada disciplina sobre o valor total.
- Faixa mínima e máxima.
- Comportamento em diferentes verticais.
No agregado, começam a aparecer padrões.
Exemplo hipotético:
- Em corporativo, climatização tende a ser A da curva.
- Em hospitalar, elétrica costuma pesar mais.
- Em determinados industriais, utilidades e infraestrutura técnica dominam.
- Em retrofit comercial, demolição e adequações podem ter peso relevante.
Se você percebe que, historicamente, em hospitalares a hidráulica gira em torno de 7% da venda e elétrica gira em torno de 18%, isso cria referência imediata.
Não substitui levantamento.
Não substitui análise técnica.
Mas ajuda muito na estimativa e na checagem de coerência.
Se, no meio do orçamento, sua elétrica está representando 8% numa tipologia onde historicamente gira em torno de 20%, isso acende um alerta.
Pode ser escopo diferente.
Pode ser ganho real.
Ou pode ser omissão.
O ponto é lembrar que orçamento também é estatística.
Muita gente se prende tanto ao escopo personalizado do cliente que esquece que existe comportamento médio de mercado dentro da própria empresa.
Quando você usa histórico estruturado por EAP, você ganha:
- Referência rápida para estimativa.
- Ferramenta de validação de coerência.
- Apoio para defender premissa.
- Base para decidir nível de precisão.
Se você ainda não tem esse consolidado ou sua empresa não fornece isso em dashboard, vale estruturar.
Eu escrevi um artigo separado explicando a forma mais rápida de extrair esse histórico e tipificar por vertical usando base de orçamentos anteriores.
(Deixo o link aqui para quem ainda não tem essa base estruturada.)